Ser fã do Neymar foi, por muitos anos, um exercício de fé. Não fé bonita, daquelas que fazem sentido. Foi fé cansada. Fé teimosa. Fé de quem olha para um jogador genial e tenta fingir que todo o resto não existe. Fé de quem vê um drible absurdo em um domingo e, na segunda-feira, precisa explicar mais uma polêmica, mais uma escolha estranha, mais uma notícia constrangedora, mais uma atitude infantil de um homem adulto tratado como menino até depois dos 30 anos.

Neymar surgiu no Santos como uma promessa divina. Era impossível não se encantar. Ele parecia jogar em outra velocidade. O corpo magro, o cabelo chamativo, os dribles, a ousadia, a Vila Belmiro em festa, tudo parecia anunciar o nascimento de um craque que devolveria ao Brasil aquilo que a Seleção tinha perdido: alegria, improviso, arrogância técnica, futebol de rua dentro do estádio.
Naquele início, criticar Neymar parecia quase um crime contra a beleza do jogo. Como criticar alguém que fazia aquilo com a bola? Como questionar um garoto que humilhava zagueiros, decidia clássicos, encantava crianças e vendia ao torcedor brasileiro a ilusão de que o país ainda produzia gênios como antes?
Mas talvez o erro tenha começado aí.
O Brasil não acompanhou Neymar. O Brasil idolatrava Neymar. E idolatria, quando vira religião, não aceita análise. Aceita culto.

Em 2010, René Simões disse uma frase que atravessou a carreira de Neymar como uma maldição: “Estamos criando um monstro”. Na época, muita gente achou exagero. O técnico parecia duro demais com um garoto talentoso demais. Mas o contexto já era revelador: Neymar havia desobedecido ordens, discutido com Dorival Júnior e exposto uma dificuldade evidente de lidar com limites. René não estava dizendo que Neymar era um monstro. Estava dizendo que o ambiente em volta dele estava criando um. E, olhando agora, é difícil não perguntar: ele estava errado?
Porque o problema nunca foi apenas Neymar. Foi o ecossistema inteiro. Dirigentes ajoelhados, patrocinadores sorrindo, imprensa orbitando, torcedores defendendo qualquer coisa e uma legião de fãs incapaz de aceitar a crítica mais simples. Para essa turma, Neymar nunca erra. Neymar é perseguido. Neymar é incompreendido. Neymar é vítima de inveja. Neymar é Deus. E quando um jogador vira Deus para seus fãs, qualquer cobrança vira heresia.
Só que Deus não simula falta. Deus não briga com técnico. Deus não some em decisões. Deus não transforma cada ciclo de Copa em novela. Deus não precisa que todo mundo explique por que ele ainda vai dar certo aos 34 anos.

No Santos, Neymar foi mágico. Isso não dá para negar. Ganhou Libertadores, virou símbolo de uma geração e fez o torcedor brasileiro acreditar que havia um caminho possível entre Ronaldo, Ronaldinho, Pelé e o futuro. Mas até ali já existia uma pergunta incômoda: estávamos formando um craque ou mimando uma celebridade?

No Barcelona, ele viveu seu auge real. Ali, talvez por não ser o centro absoluto do universo, Neymar foi mais jogador e menos entidade. Ao lado de Messi e Suárez, ganhou Champions League, decidiu jogos grandes e mostrou que podia ser parte de um time histórico. Curiosamente, quando precisou dividir o palco, jogou seu melhor futebol. Quando quis o palco só para ele, a história começou a desandar.

A ida para o PSG foi vendida como ambição. Na prática, pareceu vaidade. Ele saiu do Barcelona para deixar de ser coadjuvante de Messi e virar protagonista absoluto em Paris. A transferência foi histórica, a maior do futebol mundial, mas também foi o grande ponto de ruptura da carreira. Neymar escolheu ser centro de um projeto bilionário, artificial, cercado de marketing e sem alma. Ganhou títulos nacionais, fez gols, deu assistências, mas e daí? O objetivo era ser o melhor do mundo. Foi? O objetivo era ganhar a Champions como protagonista. Ganhou? O objetivo era comandar uma era. Comandou?
Ou apenas trocou a possibilidade de grandeza esportiva por uma bolha de dinheiro, privilégio e desculpas?

Depois vieram as lesões. Muitas. Sempre elas. E aqui também há uma parte triste, porque lesão não é escolha moral. Ninguém escolhe romper ligamento, quebrar metatarso ou perder sequência. Mas a carreira de Neymar virou uma sala de espera permanente. Esperar voltar. Esperar entrar em forma. Esperar a Copa. Esperar o jogo decisivo. Esperar maturidade. Esperar silêncio. Esperar foco. Esperar que, em algum momento, o futebol falasse mais alto que o circo.
Mas o circo quase sempre falava mais alto.

A vida pessoal virou espetáculo público. Notícias sobre infidelidade, pedidos públicos de desculpa, idas e vindas amorosas, filhos de relações diferentes, companheiras expostas, reconciliações, términos e uma intimidade transformada em enredo de rede social. Ninguém precisa exigir santidade de jogador de futebol. Mas também não dá para fingir que a imagem pública não pesa. Quando um ídolo vive em combustão permanente, a admiração começa a cansar. Não por moralismo barato, mas porque chega uma hora em que o talento deixa de compensar a exaustão.
E aí surgem os defensores profissionais do indefensável. Aqueles fãs cegos que tratam qualquer crítica como perseguição. Se você critica as escolhas de carreira, é hater. Se questiona a postura, é invejoso. Se fala das lesões, é desumano. Se lembra que ele nunca decidiu uma Copa para o Brasil, está diminuindo o craque. Se aponta as polêmicas pessoais, está invadindo a vida privada. Se critica propaganda de casa de aposta, está exagerando.

Em 2026, o Ministério Público cobrou contratos de Neymar e Virgínia Fonseca com a Blaze dentro de uma investigação sobre a plataforma. A apuração tinha como foco a empresa, não Neymar diretamente, mas o incômodo permanece: por que um dos maiores ídolos do país precisa emprestar sua imagem a um mercado que tem destruído financeiramente tanta gente comum? Quando o dinheiro já é infinito, qual é a justificativa moral para vender sonho de aposta a um público vulnerável?
É aqui que a idolatria fica mais perigosa. Porque o fã cego não quer discutir nada disso. Para ele, Neymar é sempre menino. Sempre perseguido. Sempre mal interpretado. Sempre “ousadia e alegria”. Mas que alegria é essa que exige tanta explicação? Que ousadia é essa que tantas vezes parece irresponsabilidade embrulhada em marketing?
E então chegamos à Seleção Brasileira.
Neymar é o maior artilheiro da história da Seleção segundo a contagem da FIFA. Superou Pelé. Fez dezenas de gols. Chegou ao possível fim da trajetória com números gigantes: 80 gols e 58 assistências em 130 partidas, caso se confirme sua despedida após a eliminação para a Noruega. Números enormes. Números de craque. Números que ninguém sério pode ignorar.
Mas a pergunta precisa ser feita, mesmo que os devotos se irritem: serviram para quê?
Serviram para construir uma era vencedora? Não.
Serviram para trazer o hexa? Não.
Serviram para recolocar o Brasil no topo do mundo? Não.
Serviram para transformar Neymar em uma lenda incontestável da Seleção, como Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho ou Cafu? A resposta dói, mas precisa ser enfrentada: não desse jeito.

O único título de Neymar pela Seleção principal foi a Copa das Confederações de 2013. Um torneio marcante, sim. Um torneio em que ele jogou muito, sim. Mas também um torneio que, visto de longe, virou quase um monumento ao engano. Parecia o início de uma era. Hoje parece o trailer de um filme que nunca foi lançado. A Reuters também registrou esse dado incômodo: apesar dos muitos títulos por clubes, o único troféu dele pela Seleção principal foi a Copa das Confederações de 2013.

Há ainda a prata olímpica em Londres 2012 e o ouro olímpico no Rio 2016, este último histórico, com Neymar como capitão e protagonista. O ouro olímpico teve peso emocional, especialmente por ser inédito para o futebol masculino brasileiro. Mas futebol olímpico não é Copa do Mundo. Não é Seleção principal em sua expressão máxima. É importante, é bonito, é histórico, mas não resolve a pergunta maior. O Comitê Olímpico do Brasil registra as medalhas de prata em 2012 e ouro em 2016 na trajetória dele.
Então, sim, Neymar é um nome da Seleção. Seria absurdo negar. Mas ele é que tipo de nome?
Um grande artilheiro? Sim.
Um jogador tecnicamente histórico? Sim.
Um protagonista de ciclo vencedor? Não.
Um líder que conduziu o Brasil ao topo? Não.
Um símbolo de geração? Sim, mas talvez esse seja justamente o problema. Neymar simboliza perfeitamente a geração brasileira que prometeu muito, produziu bons números, acumulou marketing, virou marca global e fracassou no essencial: ganhar quando realmente importava.

A eliminação contra a Noruega foi cruel porque pareceu um fechamento narrativo. O Brasil perdeu por 2 a 1 nas oitavas de final, Neymar marcou um pênalti nos acréscimos e sugeriu que aquele poderia ter sido seu último jogo pela Seleção. Saiu emocionado. O país saiu eliminado. A espera pelo hexa foi empurrada para 2030. E, se confirmar a aposentadoria internacional, Neymar termina com números de gigante e sensação de obra inacabada.

É quase poético, mas de um jeito amargo. O último ato não foi um golaço antológico, uma final, uma redenção. Foi um pênalti no fim de um jogo perdido. Um gol estatístico. Um gol que aumenta a conta, mas não muda o destino. Mais um número bonito em uma história frustrante.

E ainda houve quem preferisse transformar a crítica em perseguição. Após o jogo contra a Noruega, a comentarista Ana Thaís Matos virou alvo de ataques por ironizar a participação de Neymar em uma confusão na reta final da partida. Esse episódio resume bem o culto: até quando a crítica nasce de um fato do jogo, parte da torcida reage como se alguém tivesse profanado uma imagem sagrada.
Mas Neymar não é sagrado. Nenhum jogador é.
Essa talvez seja a libertação necessária para falar dele com honestidade. Neymar foi genial, mas também foi frustrante. Foi mágico, mas também foi cansativo. Foi vítima de lesões, mas também autor de escolhas ruins. Foi perseguido em alguns momentos, mas protegido demais em muitos outros. Foi cobrado como craque, mas tratado como criança quando convinha. Queria o bônus de ser ídolo, mas muitas vezes parecia não aceitar o ônus de ser exemplo.
Ser fã do Neymar foi triste porque a gente viu o tamanho do talento. Não estamos falando de um jogador comum que a torcida superestimou. Neymar era tudo aquilo mesmo. O drible era real. A genialidade era real. A capacidade de decidir era real. O carisma era real. O problema é que a bagunça também era real.
E talvez essa seja a pior parte: Neymar não deixou a sensação de que não podia mais. Deixou a sensação de que poderia ter sido muito mais.
Poderia ter escolhido melhor.
Poderia ter se cercado melhor.
Poderia ter amadurecido antes.
Poderia ter entendido que ser craque não é só fazer gol em amistoso, eliminatória ou jogo controlado. É também aparecer quando o país inteiro está olhando, quando a história exige, quando o talento precisa virar legado.
Os fãs cegos dirão que os números encerram qualquer discussão. “Maior artilheiro da Seleção.” “Gênio.” “Ídolo.” “Respeita o menino Ney.” Mas números não são absolvição. Gols contam uma parte da história, não a história inteira. O futebol brasileiro não vive de planilha. Vive de memória. E a memória da Seleção é cruel com quem não vence Copa.
Pelé não é Pelé só pelos gols. Ronaldo não é Ronaldo só pelos gols. Romário não é Romário só pelos gols. Eles têm imagens definitivas. Momentos eternos. Taças que fecham argumentos.
No fim, Neymar talvez seja o maior “e se” da história recente do futebol brasileiro.
E se tivesse ficado no Barcelona?
E se tivesse escolhido menos dinheiro e mais projeto esportivo?
E se tivesse amadurecido antes?
E se tivesse sido menos blindado?
E se tivesse entendido que o mundo não era contra ele, mas apenas cansado dele?
E se o Brasil tivesse parado de tratá-lo como Deus e começado a tratá-lo como atleta, com talento imenso e responsabilidades proporcionais?
René Simões viu cedo demais algo que muitos só aceitaram tarde demais. Não era sobre destruir Neymar. Era sobre alertar que talento sem limite vira espetáculo perigoso. O Brasil não criou apenas um craque. Criou uma entidade publicitária, emocionalmente blindada, defendida por fiéis e cercada por desculpas.
Neymar foi grande. Isso é fato.
Mas foi grande o suficiente para tudo que prometeu?
Foi grande o suficiente para o tamanho da idolatria que construíram em volta dele?
Foi grande o suficiente para ser tratado como Deus?
Não.
Foi humano. Brilhante, mimado, genial, contraditório, frágil, vaidoso, espetacular e frustrante.
E talvez seja isso que doa tanto. Porque ser fã do Neymar não foi apenas acompanhar um craque. Foi acompanhar, ano após ano, a lenta destruição de uma expectativa. Foi ver um jogador capaz de tudo entregar muito, mas nunca exatamente aquilo que parecia destinado a entregar.
No dia 5 de julho de 2026, contra a Noruega, talvez não tenha acabado apenas mais uma Copa para o Brasil.
Talvez tenha acabado a última desculpa.
A desculpa de que ainda dava tempo.
A desculpa de que a próxima seria diferente.
A desculpa de que os gols, sozinhos, bastariam.
A desculpa de que Neymar ainda se tornaria o herói que seus fãs juravam que ele já era.
Não se tornou.
E isso não apaga o craque. Mas desmonta o mito.

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