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A Maldição da Eternidade? Sousou no Frieren, Heidegger e o Peso do “Agora”

A maioria das histórias de fantasia termina com a derrota do Rei Demônio. O herói triunfa, o mundo é salvo, e os créditos sobem. Mas Sousou no Frieren (Frieren e a Jornada para o Além) começa exatamente onde as outras acabam. E é nesse “depois” que reside a verdadeira angústia da obra.

Acompanhamos Frieren, uma elfa com uma expectativa de vida milenar, que vê a jornada de 10 anos ao lado do herói Himmel como um mero “fim de semana”. A tragédia se instala quando Himmel morre de velhice, e Frieren percebe, tarde demais, que aqueles 10 anos foram a vida inteira dele — e ela não se deu ao trabalho de conhecê-lo de verdade.

Mas por que é tão difícil valorizar o tempo quando temos muito dele? Para responder a isso, precisamos convidar Martin Heidegger e Henri Bergson para a nossa “party” de RPG.

O filósofo alemão Martin Heidegger, em sua obra seminal Ser e Tempo, introduz o conceito de Dasein (o ser-aí, ou a existência humana). Para Heidegger, o que define a nossa existência e nos impulsiona a agir é a consciência da nossa própria finitude. Ele chama isso de “Ser-para-a-morte”.

A morte não é apenas o fim biológico; é a barreira que dá contorno à vida. É porque sabemos que vamos morrer que sentimos urgência em amar, realizar e criar. Himmel, o herói humano, vivia intensamente cada momento, construindo estátuas e ajudando aldeões, porque ele sabia que seu tempo era escasso.

Frieren, por outro lado, carece dessa urgência. Para um ser imortal (ou quase), o “amanhã” é um recurso infinito. E, na economia da existência, o que é infinito não tem valor. O arrependimento de Frieren no funeral de Himmel é o choque de realidade existencial: ela percebe que a falta de um “prazo de validade” a impediu de dar valor ao “agora”.

Pergunta para você, leitor: Quantas vezes agimos como elfos imortais, procrastinando sonhos e conversas importantes, esquecendo que, na verdade, somos humanos com um relógio correndo?

Outro ponto fascinante no anime é como a montagem das cenas distorce o tempo. Anos passam em segundos para Frieren, enquanto dias parecem arrastados para seus companheiros humanos. Aqui, entramos no conceito de Duração (La Durée), do filósofo francês Henri Bergson.

Bergson argumentava que o tempo científico (do relógio) é falso e estático. O tempo real é o tempo vivido, a duração subjetiva que sentimos na pele.

  • Para Frieren, limpar uma floresta por 6 meses é um piscar de olhos.
  • Para Fern (humana), esses 6 meses são uma fase crucial da adolescência.

A jornada de Frieren para Ende (o lugar onde as almas descansam) é, essencialmente, uma tentativa de sincronizar o seu tempo interno com o tempo humano. Ela está tentando aprender a sentir o peso dos minutos da mesma forma que nós sentimos. Ela busca transformar a chronos (o tempo sequencial) em kairos (o momento oportuno, cheio de significado).

Ao longo da série, Frieren coleciona magias “inúteis” (como uma magia para criar campos de flores) apenas porque Himmel gostava delas. Segundo teóricos da memória coletiva, como Maurice Halbwachs, a memória não é apenas um arquivo passivo; é uma reconstrução ativa que fazemos para manter a identidade de grupos e pessoas vivas.

Frieren torna-se um arquivo vivo. Sua “penitência” é carregar a memória daqueles que se foram, garantindo que a existência breve deles não seja engolida pelo esquecimento.

Sousou no Frieren nos ensina uma lição agridoce: a beleza da vida não está na sua duração, mas na sua intensidade. Talvez a verdadeira maldição não seja morrer, mas viver para sempre sem nunca ter entendido o valor de um simples nascer do sol ao lado de um amigo.

Se você soubesse que sua jornada acaba daqui a 10 anos, o que você faria diferente hoje?

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