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O que god of war ragnarok nos ensina sobre a dor da perda

Introdução: A Tragédia Silenciosa no Crepúsculo dos Deuses

A narrativa contemporânea nos videogames transcende a mera mecânica de entretenimento para se tornar um veículo sofisticado de exploração da condição humana, rivalizando com a literatura clássica e o cinema de autor na sua capacidade de dissecar temas complexos. Dentro do vasto panteão de arquétipos apresentados em God of War Ragnarök (2022), onde deuses guerreiam e destinos apocalípticos se desenrolam, a tragédia mais visceral e humanamente ressonante não se encontra na grandiosidade do Ragnarök em si, mas na implosão silenciosa e devastadora de um ferreiro anão: Sindri.

Enquanto a saga nórdica de Kratos é frequentemente analisada sob a ótica da paternidade e da redenção, a trajetória de Sindri oferece um contraponto sombrio e necessário, um estudo de caso sobre o “Luto Complicado”, a falência da esperança e a corrosão da identidade face a uma perda metafisicamente absoluta.

Ao contrário dos heróis que encontram propósito na dor, Sindri representa a realidade desconfortável daqueles para quem o luto não é uma travessia, mas um destino final, um “buraco” que consome o observador, um sofrimento que não o fortalece, mas sim o aniquila.

A Misofobia como Mecanismo de Controle Existencial

Para compreender a magnitude da queda de Sindri, é importante dissecar primeiramente a estrutura da sua personalidade antes do evento traumático. Introduzido em God of War (2018), Sindri é definido, à superfície, por uma idiossincrasia marcante: a misofobia (medo patológico de germes e contaminação). No entanto, uma análise psicológica mais profunda revela que esta obsessão pela limpeza não era meramente um alívio cômico, mas um sofisticado mecanismo de defesa contra o caos inerente ao seu ofício e ao mundo brutal que habitava.

Sindri operava num universo de vísceras, sangue de monstros e a sujeira fuliginosa da forja. O uso das suas luvas grossas, que se estendiam até aos cotovelos, e a sua repulsa visível por qualquer contato físico direto, funcionavam como uma barreira não apenas contra bactérias (“pequenas bestas”), mas contra a imprevisibilidade da existência.

Psicologicamente, fobias específicas de limpeza estão frequentemente relacionadas com uma necessidade intensa de impor ordem e controle sobre o ambiente. Para um ferreiro que lida com a criação de armas de destruição em massa (como o Mjölnir e o Machado Leviatã), a limpeza obsessiva pode ser interpretada como uma tentativa inconsciente de “lavar as mãos” da responsabilidade moral pela violência que as suas criações infligem.

A dicotomia entre a sua natureza gentil e o seu ofício letal gerava uma dissonância cognitiva que a misofobia ajudava a gerir. As luvas eram a fronteira final entre Sindri e a barbárie. Enquanto ele pudesse manter as mãos limpas, poderia manter a ilusão de uma separação entre o criador e a destruição.

A Simbiose Fraterna e a Sombra do Segredo

A relação de Sindri com Brok era a pedra angular da sua psique. Eles não eram apenas irmãos ou sócios; constituíam uma unidade funcional diádica. Brok, com a sua pele azulada pela prata bruta e a sua atitude grosseira e sem filtros, representava o “Id” desinibido, a aceitação da natureza bruta, suja e material do mundo. Sindri, por sua vez, representava o “Superego” a ordem, a técnica refinada, a preocupação social e a estética.

A revelação crucial de que Sindri já havia ressuscitado Brok uma vez, resgatando a sua alma do Lago das Almas em Alfheim, contextualiza toda a neurose de Sindri. Ele vivia sob o peso de um segredo terrível: ao trazer Brok de volta, falhou em recuperar a quarta parte da alma, a “direção”. Isto significa que a ansiedade perpétua de Sindri, o seu nervosismo e o seu desejo excessivo de agradar, eram manifestações de uma culpa profunda e de um medo constante de que a “natureza” incompleta de Brok fosse descoberta.

Sindri assumiu o papel de “mãe galinha” protetora, cuidando de Brok não apenas por amor, mas por uma dívida impagável. Ele “consertou” o irmão, mas o fez de forma imperfeita, deixando uma falha estrutural na alma de Brok que assombrava Sindri diariamente. A sua higiene excessiva pode, portanto, ser lida como uma compensação simbólica: se ele não pôde limpar a mancha metafísica na alma do irmão, limparia obsessivamente o mundo físico ao seu redor.

O Paradoxo da Coragem e a Vulnerabilidade

É fundamental notar que, apesar da sua neurose, Sindri demonstrava uma coragem moral significativa antes da tragédia. Em God of War (2018), ele chega a enfrentar Kratos quando acredita que este é responsável pela morte de Faye, demonstrando que a sua lealdade e amor superam o seu medo físico. Em Ragnarök, ele arrisca a sua segurança inúmeras vezes para ajudar Atreus na sua jornada de autodescoberta, oferecendo abrigo, recursos e segredos anões, muitas vezes agindo pelas costas do próprio pai do rapaz.

Sindri não era um covarde; era um pacifista ansioso num mundo de guerra. Ele investiu emocionalmente em Atreus e Kratos, vendo neles uma extensão da sua família — uma projeção fatal que tornaria a traição final ainda mais dolorosa. Ele acreditava na reciprocidade do cuidado: “Eu cuido de vocês, vocês protegem o meu mundo.” Esta transação implícita, baseada na confiança e na hospitalidade sagrada, seria o palco para a sua destruição.

O Evento Catastrófico: A Morte de Brok e a Traição da Hospitalidade

A morte de Brok não ocorre num campo de batalha, mas no coração do santuário de Sindri, a sua casa na Árvore do Mundo. Odin, disfarçado de Tyr, infiltra-se no espaço mais íntimo e seguro dos irmãos, explorando a compaixão e a hospitalidade de Sindri. O momento em que Odin apunhala Brok é uma violação multifacetada: é uma traição política, uma violação doméstica e um assassinato fraternal.

A reação imediata de Sindri transcende o pânico. Quando a máscara de Tyr cai e a violência irrompe, Sindri tenta desesperadamente estancar o sangue, mas a sua mente colapsa sob a compreensão imediata da finalidade do ato. Diferente de outros personagens que morrem e vão para Valhalla, Helheim ou para a Luz de Alfheim, a condição única de Brok (a falta da parte “direção” da alma) dita um destino horrível: a cessação absoluta da existência. Brok não “passa para o outro lado”; ele é apagado.

A Culpa Primordial Revisitada

O ponto mais torturante da morte de Brok para Sindri não é apenas a perda da companhia, mas a confirmação de que a sua ação passada (a ressurreição falhada) condenou o irmão a este esquecimento eterno. Brok morre sabendo a verdade, que viveu uma “meia-vida”, e as suas últimas palavras e momento de realização confirmam que ele perdoou, mas a realidade metafísica permanece inalterada.

Sindri é forçado a confrontar o fato de que o seu amor “egoísta” no passado retirou de Brok a oportunidade de um pós-vida. Odin pode ter empunhado a faca, mas Sindri sente que ele próprio preparou a vítima. Esta culpa tóxica impede o processo normal de luto. Não há consolo religioso ou espiritual possível, pois Sindri sabe, com certeza técnica de um ferreiro de almas, que não há nada do outro lado para Brok.

A cena na forja, onde Sindri segura o corpo do irmão, marca o fim do Sindri “germofóbico”. O sangue de Brok cobre as suas mãos e roupas, e pela primeira vez, ele não faz menção de o limpar. O sangue do irmão torna-se a única coisa real num mundo que se revelou uma mentira cruel.

O Fim das Luvas: A Exposição ao Real

A mudança visual mais impactante em Sindri após a morte de Brok é a remoção das suas luvas e a permanência da sujeira e do sangue na sua armadura. Esta alteração não é meramente estética; é um marcador psicopatológico profundo. As luvas, que antes simbolizavam a barreira entre o “eu” de Sindri e o “mundo” perigoso, são descartadas.

A psicologia do trauma sugere que, em situações de choque extremo, as fobias anteriores podem ser “inundadas” ou substituídas por ansiedades maiores. A misofobia de Sindri era um medo de contaminação externa. Com a morte de Brok, a contaminação tornou-se interna e absoluta. O medo de germes torna-se irrelevante diante do horror da aniquilação da alma. Sindri deixa de temer a morte ou a doença porque já se sente morto por dentro.

Ao andar com as mãos nuas e sujas, Sindri adota, inconscientemente, a persona de Brok. Brok nunca usou luvas; Brok trabalhava diretamente com a matéria. Numa tentativa desesperada de manter o irmão vivo, Sindri funde-se com as características dele, num processo que Freud descreve em Luto e Melancolia: a identificação narcísica com o objeto perdido. O ego de Sindri “devora” a imagem de Brok para não ter de a largar, resultando numa mudança comportamental onde a delicadeza é substituída pela brutalidade e a higiene pela negligência.

Autonegligência como Penitência e Protesto

O estado de higiene de Sindri enquadra-se clinicamente na autonegligência severa, frequentemente associada a depressão maior e luto complicado. Manter o sangue de Brok na sua armadura é um ato de preservação de relíquia. Limpar o sangue seria “lavar” a última evidência física da existência do irmão.

Além disso, a sua aparência desgrenhada serve como um protesto visual contra os outros personagens. Quando Kratos ou Atreus olham para ele, são forçados a ver o sangue literal nas suas mãos. Sindri recusa-se a “ficar apresentável” para tornar a culpa dos outros mais palatável. A sua sujeira é uma acusação constante: “Olhem o que a sua guerra me custou.” É a rejeição das normas sociais de luto que exigem que o enlutado se recomponha e siga em frente.

Os seus olhos, descritos como avermelhados e cansados, refletem a insônia e o choro crônico, sintomas fisiológicos do luto agudo que devastam o sistema imunitário e a saúde mental.

“Pensei que fossemos família”: A Desconstrução da Lealdade

A interação final de Sindri com Kratos e Atreus na forja é um dos momentos mais dolorosos da narrativa. A frase “Pensei que fossemos família”  carrega um peso devastador. Sindri quebrou regras sagradas do seu povo, forneceu armas e abrigo, e colocou-se em perigo mortal por eles. Em troca, ele sente que foi usado como um meio para um fim.

A raiva de Sindri contra Atreus é particularmente virulenta e específica. Ele chama Atreus de “arrogant little shit” (idiota arrogante), não apenas pelo erro de trazer Odin, mas pela postura contínua de Atreus de que “tudo vai correr bem” ou que os sacrifícios são necessários para um bem maior. Sindri rejeita a narrativa do “Herói”. Para ele, a busca de identidade de Atreus (“Quem é Loki?”) custou a vida de Brok. A troca não foi equivalente.

“E agora o que eu tenho? Nem mesmo a minha família. Você não sente muito. É assim que o ‘sinto muito’ se parece?… O que você pode fazer é sair da p**** da minha frente.”

Esta rejeição violenta das desculpas de Atreus subverte o tropo comum nos jogos onde o NPC perdoa o protagonista para aliviar a consciência do jogador. Sindri nega essa absolvição. Ele força o jogador (através de Atreus) a viver com o desconforto de ter causado danos irreparáveis, mesmo que sem intenção maliciosa.

Deslocamento e Bode Expiatório

Psicologicamente, a fúria de Sindri contra Kratos e Atreus é um exemplo clássico de deslocamento. A raiva contra Odin (o assassino) é óbvia, mas Odin é um inimigo distante e abstrato naquele momento. A raiva contra si mesmo (pela ressurreição falhada) é insuportável e levaria ao suicídio imediato se totalmente confrontada. Portanto, Sindri projeta essa culpa nas pessoas mais próximas disponíveis: Kratos e Atreus.

Ele culpa Kratos pela sua passividade  e pela sua “guerra” que atrai a morte como um íman. Ele culpa Atreus pela sua ingenuidade juvenil. Ao transformá-los em vilões na sua narrativa interna, Sindri consegue canalizar a sua dor para um alvo tangível. Ele cospe na oferta de empatia de Kratos, rejeitando a mão no ombro durante o funeral, porque aceitar o conforto seria aceitar que a morte aconteceu e que a vida continua, duas coisas que Sindri recusa visceralmente.

O Enigma de Brok: “Um Buraco”

A narrativa temática do luto em Ragnarök cristaliza-se na resolução do enigma que Brok propôs a Mimir durante o jogo: “O que fica maior quanto mais você tira dele?”. Mimir, o homem mais inteligente dos reinos, falha repetidamente em responder. É apenas no momento final do funeral, quando o corpo de Brok é consumido pelas chamas e Sindri desaparece no reino entre reinos, que a resposta atinge Mimir e o jogador:

“Um buraco.”

Esta revelação é magistral na sua simplicidade e devastação. O “buraco” é a resposta literal ao enigma, mas é também a descrição fenomenológica precisa da alma de Sindri.

  1. O Vazio Ontológico: A morte de Brok criou um espaço onde antes havia matéria, vida e som.
  2. A Dinâmica da Perda: Quanto mais foi tirado de Sindri (sua paz, sua família, sua esperança, seu irmão), maior se tornou o vazio que o define. O buraco expande-se com cada tentativa de subtração.
  3. A Identidade Negativa: Sindri torna-se o buraco. Ele não é mais definido pelo que tem (habilidades, itens, loja), mas pelo que lhe falta.

A colocação desta resposta no exato momento em que Sindri parte sem dizer adeus sugere que ele se tornou uma personificação viva dessa ausência. Ele é um vácuo ambulante, consumindo a alegria ao seu redor.

A Natureza de uma Coisa: O Ritual Final

Durante a benção da lança Draupnir, Brok proferiu a frase que define a sua filosofia: “A natureza de uma coisa importa mais do que a forma de uma coisa”. No funeral, esta filosofia é testada ao limite.

A “forma” do funeral é correta: o barco, as ofertas, os amigos reunidos em Svartalfheim. Mas a “natureza” está quebrada. Não há alma para viajar. O ritual é performativo para os vivos, pois o morto já não existe.

Sindri compreende isto melhor do que ninguém. A sua participação no funeral é mecânica. Ele aparece, empurra o barco, e observa. A sua falta de palavras e a recusa em discursar contrastam com os elogios fúnebres tradicionais. Ele sabe que as palavras são “forma”, e a “natureza” da situação é o horror absoluto do nada. A sua partida abrupta antes do fim da cerimónia social é a rejeição final da forma. Ele não vai fingir que há beleza na despedida.

A Refutação do “O que não nos mata…”

A cultura popular e a filosofia de algibeira frequentemente citam Nietzsche: “O que não me mata, torna-me mais forte” (Crepúsculo dos Ídolos). A narrativa de Sindri atua como uma antítese brutal a esta máxima. O trauma não fortaleceu Sindri; mutilou-o. Ele adquiriu poder letal (a sua capacidade de combate no Ragnarök é aterrorizante), mas perdeu a sua humanidade e vitalidade.

Nietzsche também questiona em Assim Falou Zaratustra: “Tens de estar pronto para te queimares na tua própria chama: como poderias renovar-te sem primeiro te tornares cinzas?”. Sindri foi queimado. Tornou-se cinzas. Mas a “renovação” ou o renascimento da fênix não ocorreu. Ele permanece no estado de cinzas. A sua transformação sugere que há sofrimentos que são puramente destrutivos, desprovidos de valor redentor ou pedagógico. É um niilismo reativo: se o universo permitiu a extinção de Brok, então o universo não merece ser preservado ou apreciado.

A Vingança como Vazio

A filosofia da vingança é explorada através da ação final de Sindri contra Odin. Ao esmagar a pedra da alma, Sindri obtém a sua vingança suprema. Mas o jogo não retrata este momento como triunfante. A camera foca no rosto vazio de Sindri. Não há alívio. Confúcio alertou: Antes de embarcar numa jornada de vingança, cave duas covas”. Sindri cavou a cova de Odin, mas metaforicamente já está deitado na sua própria.

A vingança não preencheu o “buraco”. Apenas removeu o objeto do seu ódio, deixando-o sozinho com a sua dor. A falta de catarse na morte de Odin é intencional: serve para ilustrar que a justiça punitiva não reverte a perda ontológica.

A Recusa do Fechamento Narrativo

A decisão dos roteiristas de deixar Sindri “quebrado” e desaparecido no final é uma escolha narrativa audaciosa. A maioria das histórias de fantasia oferece uma resolução onde a amizade é restaurada. God of War Ragnarök respeita a realidade do trauma ao negar esse final feliz.

A ausência de Sindri no pós-jogo (ele não pode ser encontrado na loja, sendo substituído por Lunda) cria uma ausência mecânica para o jogador. Sempre que o jogador precisa de comprar um item ou melhorar uma armadura, é lembrado da falta de Sindri. O design do jogo utiliza a mecânica de “vendor” (vendedor) para reforçar a perda narrativa. O silêncio na loja é ensurdecedor.

Conclusão: O Peso do Que Resta

A análise da dor de Sindri em God of War Ragnarök revela uma representação magistral e desoladora da condição humana diante do absurdo da morte. A transformação do anão, de um alívio cômico germofóbico para um avatar da vingança melancólica, desafia as convenções do gênero e oferece uma crítica mordaz às narrativas de superação fácil.

Sindri ensina-nos que o amor profundo carrega o risco de uma destruição profunda. O seu “buraco” não é apenas a ausência de Brok, mas a cratera deixada pela erradicação da sua própria inocência e fé no mundo. A sua negligência higiênica, a sua recusa em perdoar e o seu isolamento final são sintomas de uma verdade que muitas vezes tentamos ignorar: há coisas que não podem ser consertadas. Nem pela magia, nem pelo tempo, nem pelo perdão.

Ao final, Sindri não é um vilão, nem um herói. Ele é uma ferida aberta na narrativa, recusando-se a cicatrizar, exigindo que o universo testemunhe a profundidade do que foi perdido. E na sua recusa silenciosa, na sua partida para o vazio entre os reinos, ele permanece como a figura mais tragicamente humana de toda a saga divina. O enigma foi resolvido, mas o preço da resposta foi tudo o que ele era.

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